| ESTABILIZAÇÃO
DO PACIENTE COM DISTÚRBIO NEUROMOTOR PARA
TRATAMENTO ODONTOLÓGICO
O
distúrbio neuromotor impede que durante
o tratamento odontológico os pacientes
mantenham-se quietos ou imobilizados e a estabilização
dos mesmos torna-se necessária, visando
conforto máximo para o paciente sem penalizar
o profissional. O paradigma de saúde
está mudando e não poderia ser
diferente na Odontologia. Não resta a
menor dúvida quanto à necessidade
de se estabilizar um paciente com distúrbio
neuromotor, para que ele possa ser submetido
a tratamento odontológico, beneficiando-se
da tecnologia e novos recursos disponíveis.
A
questão da estabilização
do paciente é controversa, porém,
é preciso reconhecer esta necessidade,
a fim de que ele possa ser submetido a tratamento
odontológico minimamente invasivo, dispensando
internações hospitalares, anestesia
geral e os riscos inerentes a este procedimento.
Referimo-me
aqui, a estabilização dos movimentos
involuntários, seqüelas de lesões
no córtex, gânglios da base e cerebelo,
que determinam a espasticidade, atetonia e ataxia.
A
anestesia geral não é o método
de eleição, devendo apenas ser
utilizada quando a indicação é
absoluta, porque as condições
sistêmicas na maioria das vezes contra-indica
a sua utilização; por outro lado
a extensão da intervenção
odontológica muitas vezes não
justifica este procedimento.
Quando
se pensa ou discute a estabilização
de um paciente, esbarra-se numa discussão
sem fim, onde de um lado há profissionais
que são veementemente contra e de outro
pacientes que precisam ser estabilizados.
Numa
destas discussões onde a parte envolvida
era um paciente portador de lesão medular,
chegamos 'a conclusão de que o problema
era a semântica das palavras CONTENÇÃO
/ ESTABILIZAÇÃO .
Em relação 'a terminologia empregada
para o método, verificamos no dicionário
da língua portuguesa, Michaelis, o real
significado das palavras que ao longo do tempo
tem instigado a discussão entre profissionais,
e encontramos o seguinte:
Contenção: Conjunto de meios empregados
para manter na posição apropriada,
os órgãos que tendem a abandoná-la
ou que tendem a separar-se nas fraturas.
Estabilização: Método utilizado
para se obter equilíbrio, firmeza e segurança.
Entendemos então que contenção
refere-se a parte, ao membro, enquanto estabilização
refere-se ao corpo, ao todo. E principalmente,
que o preconceito de quem não é
portador deste distúrbio impede que reconheçamos
a verdadeira necessidade de sua utilização.
Não podemos avaliar a real necessidade,
se não sentimos na pele o desconforto
do movimento involuntário, e pensando
assim, porque não ouvir a parte mais
importante envolvida nesta controvérsias
- o paciente?
Módulo
Estabilizador da EMAD
O objetivo da utilização do módulo
Estabilizador da EMAD é estabilizar o
paciente na cadeira odontológica com
conforto, sem que haja riscos de traumas físicos
e/ou psicológicos, mantendo o mesmo em
posição ergonômica e evitando
a anestesia geral.
Depois
de vários anos de estudos, a EMAD desenvolveu
o Estabilizador Godoy que vem complementar os
diversos métodos de atendimento odontológico
para pacientes portadores de deficiências
- PPDs.
Contém um assento de fácil adaptação
à cadeira odontológica, que estabiliza
os membros inferiores, permitindo o conforto
de movimentos de rotação de quadril;
inibe flexão e extensão do joelho;
adução e flexão do quadril
e antiversão da pelve.
Para
os membros superiores foram desenvolvidas duas
blusas (superior e inferior) ; a inferior permite
flexão dos braços até a
altura do peito (posição de cruzar
os braços), sendo que estes movimentos
não interferem nos procedimentos odontológicos.
A blusa superior fará a contenção
quando houver necessidade. As blusas estabilizam
o paciente na cadeira, inibindo os movimentos
superiores, voluntários e involuntários.
Para
pacientes sem o controle da cabeça utiliza-se
o colar cervical dotado de ajustes. Inibe a
hiperextensão , flexão e rotação
da coluna cervical. Este colar cervical é
também utilizado em pacientes com Síndrome
de Down, protegendo a articulação
atlânto-axial do pescoço, evitando
assim o risco de uma lesão medular em
movimentos intempestivos.
Para
pacientes com lesão medular é
utilizado um triângulo rígido que
faz a retificação da coluna vertebral,
evitando o deslizamento do paciente sobre a
cadeira odontológica. Proporciona a flexão
dos joelhos e quadris, retificando a lordose
lombar.
Completando
o módulo, há uma dedeira confeccionada
em material de alta resistência e cujo
uso permite manter o paciente com a boca aberta,
estabilizando a cabeça com uma leve pressão
contra o encosto, impedindo a movimentação
e preservando o paciente de boca aberta. Com
isto é possível melhorar a visualização
do campo operatório, impedindo que o
paciente feche a boca, o que poderia machucá-lo
ou o profissional.
Vantagens na utilização do módulo
Evita anestesia geral; o paciente fica estabilizado
na cadeira; permite a realização
de vários procedimentos em uma única
sessão; evita custos médico-hospitalares;
pode ser usado em crianças e adultos,
sendo indiferente o peso e massa muscular do
paciente, uma vez que é totalmente ajustável;
facilita o preparo do paciente; diminui os movimentos
de cabeça; permite posição
ergonômica, confortável para o
profissional; o paciente fica menos agitado.
Desvantagem na utilização do módulo
Calor, erro na indicação do médico/
dentista e inabilidade do profissional em manipular
o equipamento.
Relatos de casos
Caso 1 - Paciente sexo masculino, 12 anos, portador
de paralisia cerebral e deficiência mental,
procurou atendimento odontológico ambulatorial.
Várias tentativas foram feitas para adequação
do paciente à dinâmica de atendimento
sem sucesso. Optou-se então pela apresentação
gradativa do módulo estabilizador Godoy;
inicialmente o paciente teve contato físico/tátil
com o mesmo; depois disto ele assistiu a estabilização
de outros pacientes para o atendimento odontológico.
Desta forma, o paciente pode concretizar o uso
do módulo, eliminando fantasias e o medo
do desconhecido. Neste caso, o paciente entusiasmado
sentou-se na cadeira odontológica em
que estava instalado o estabilizador Godoy e
iniciou sua auto - estabilização,
demonstrando segurança e confiança
pelo novo método de atendimento. Foram
realizados em uma única sessão
exame clínico, profilaxia e extração
no 12.
Após esta sessão inicial ,o paciente
é atendido sempre com o estabilizador
Godoy, o que permite um procedimento convencional,
sem oferecer riscos ao paciente e diminuindo
o estresse do cirurgião - dentista que
tentava sem sucesso realizar o tratamento.
Caso 2 - Paciente sexo feminino, 12 anos, portadora
de paralisia cerebral espástica , quadriplegia
e deficiência mental severa, procurou
tratamento odontológico ambulatorial.
Após anamnese e exame físico foi
indicada para anestesia geral por vários
profissionais, mas seu estado orgânico
delicado contra-indicava o procedimento.
Optou-se então por atendê-la com
o módulo estabilizador Godoy, ainda que
não fosse possível contar com
a resposta da mesma na dinâmica de apresentação
do equipamento. Nas fotos é possível
se observar o sucesso no tratamento e os sinais
de expressão facial da paciente denotam
que esta não esteve em sofrimento durante
o atendimento. Foram realizados exame clínico,
profilaxia , restauração de resina
foto polimerizada no 11, 53 , selante no 25
,86 , 46 e aplicação tópica
de flúor.
DISCUSSÃO
É muito difícil realizar tratamento
odontológico em pacientes portadores
de distúrbio neuromotor, principalmente
quando associado à deficiência
mental.
O comprometimento cognitivo torna mais difícil
o tratamento, por não se poder discutir
e levar o paciente ao entendimento do que se
vai realizar.
Os procedimentos odontológicos por si,
são um estímulo para a espasticidade
e hiperreflexia, desencadeando com mais freqüência
estas respostas durante o tratamento.
O uso da anestesia geral em nível hospitalar
para o atendimento destes pacientes nem sempre
é possível em função
do delicado estado de saúde geral.
Ainda que o estado geral permita o uso da anestesia
geral, os custos hospitalares e médicos
são muito altos, determinando que muitos
pacientes não possam se beneficiar desta
técnica .
Os métodos disponíveis para a
adequação e abordagem destes pacientes
muitas vezes podem levar 5 ou 6 sessões,
o que permite agravar o estado bucal do paciente,
além de cansar os pais e/ou responsáveis
que abandonam o tratamento por não haver
progresso. O fato de se deslocarem de locais
distantes abrevia o potencial de espera positiva
ao tratamento.
Pacientes portadores de distúrbio neuromotor
sem comprometimento cognitivo preferem ser atendidos
com o módulo estabilizador, por não
mais se preocuparem em auxiliar a contenção/estabilização
das partes afetadas.
Cirurgiões dentistas que fizeram uso
do módulo estabilizador relatam maior
conforto, maior segurança, maior numero
de procedimentos por sessão, menor tempo
no atendimento e maior satisfação
por parte da família e/ou acompanhantes
do paciente.
CONCLUSÃO
Nos dois casos clínicos apresentados,
o sucesso obtido com o uso do módulo
sob todos os pontos de vista foi total, sendo
que os custos também foram diminuídos
em todos sentidos - locomoção
/transporte, centro cirúrgico e numero
de sessões.
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MARIA
LUCIA ZARVOS VARELLIS
-
Cirurgiã-Dentista formada pela
FOUSP
-
Autora do livro: O PACIENTE COM NECESSIDADES
ESPECIAIS NA ODONTOLOGIA -MANUAL PRÁTICO.
Editora Santos, 2005.
-
Especialista em Odontologia para Pacientes
com Necessidades Especiais
-
Vice-Diretora do Departamento de Odontologia
para Pacientes com Necessidades Especiais
da APCD - Associação Paulista
de Cirurgiões-Dentistas
-
Assessora da Presidência da ABCD
- Associação Brasileira
de Cirurgiões-Dentistas
-
Coordenadora Científica do GEP
- Grupo de Estudos e Pesquisa em Saúde
Bucal e Deficiência Mental da APAE
- Associação de Pais e Amigos
dos Excepcionais - SP |
Referências Bibliográficas:
VARELLIS,
MLZ O Paciente com Necessidades Especiais na
Odontologia. Editora Santos, 2005.
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