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A AIDS E A GLOBALIZAÇÃO DA ECONOMIA

A discussão da Aids tem que ser inserida - a sua materialidade - no contexto da globalização da economia e das mercadorias.

Será a Aids uma mercadoria globalizada e altamente rentável ao capital?

Para tanto se faz necessário retomar o processo que faz com que as coisas se transformem em mercadorias.

Desde que a comunidade rural foi destruída e sucumbiu à urbanização desenfreada, utilizou-se um processo de fragmentação das relações sociais que é conhecido e vivido por todos. Braverman (1977) descreve esta fragmentação da seguinte forma:

"A ruína das habilidades da família e da própria família, da comunidade e os sentimentos de vizinhança de que o desempenho de muitas funções dependia antigamente, deixa vácuo. À medida que os membros da família, muitos deles agora trabalhando longe do lar, tornam-se cada vez menos aptos a cuidar uns dos outros em caso de necessidade, e à medida que os vínculos da vizinhança, comunidade e amizade são reinterpretados em uma escala mais estreita para excluir responsabilidade onerosa, o cuidado dos seres humanos uns para com os outros se torna cada vez mais institucionalizado (p.238)".

A fragmentação das relações sociais era (no século XVI) uma necessidade do sistema capitalista que precisava de mão-de-obra, ao mesmo tempo que transformava a vida em um grande mercado de compra e venda destinada a mover a máquina do lucro.

Assim se processa hoje com a Aids. No meu entender, a questão da Aids, além dos aspectos clínicos e epidemiológicos, possui interfaces econômicas, sociais e políticas que são engendradas no seio do próprio sistema capitalista. Nesta direção a materialidade posta é a indústria do sexo que está fundamentalmente ligada à produção e consumo de riquezas. Por outro lado, o doente da Aids é oneroso, porque além do tratamento ser caro e geralmente longo, não consegue devolver em determinado momento à sociedade um paciente em condições de produzir e consumir. Isto evidencia como a Aids transforma-se em mercadoria.

Vejamos então como outras relações se transformaram em mercadoria lucrativa.

Como indica Braverman (1977) se antes visitava-se um amigo e ficava-se hospedado em sua casa, posteriormente passa-se a usar um hotel; os idosos já não são tratados pelos mais jovens, vão para os asilos; os doentes não permanecem mais nas casas, devem ir aos hospitais; os médicos já não visitam os doentes, estes é que vão ao médico em suas clínicas; doentes mentais são colocados em manicômios; a escola passa a ser a única responsável pelo ensino; os pais já não têm tempo ou não sabem ensinar. Tudo se fragmenta. Tudo custa. O relacionamento entre os homens passa a ser o relacionamento da compra e venda.

Dentro desta fragmentação que leva a degradação das relações sociais, como fica a questão da Aids?

A estrutura preventiva como os processos de pesquisa da Aids, no início da doença, eram controladas pelos órgãos governamentais que tinham como objetivo básico à descoberta de drogas eficazes visando o tratamento e até mesmo a cura. A grande prevenção seria produzir uma vacina.

Com a globalização e a política tercerizante e privatista, tudo que o Estado faz é tido como incompetente e nada eficaz, produzindo espaço para a apologia da produtividade e eficiência do privado.

Neste contexto o Estado por não conseguir suprir todo processo de pesquisa, controle epidemiológico e clínico, abriu e produziu condições para a iniciativa privada - os trustes laboratoriais - descobrir um grande nicho de mercado para a indústria farmacêutica, que com recursos próprios tinha e tem condições de viabilizar as pesquisas de drogas da qual não eram mais interessantes "exterminar o vírus" e sim controlar a doença.

Desta forma a iniciativa privada vai reservar aos órgãos governamentais a tarefa de prevenção e controle da doença.
Isto explica porque em um primeiro momento foi interessante trabalhar na direção de descobrir a cura e no processo de evolução da doença - quando as pesquisas passaram para iniciativa privada - o objetivo é deslocado da cura para buscar-se o controle.

O controle da doença e a busca de tratamentos longos e baseados em coquetel de fármacos, tornam as pesquisas à cura, inviáveis. Em contrapartida as pesquisas nos campos supra citados, produzem a condição de que os pacientes vão consumir drogas por longos períodos, fazendo da Aids uma mercadoria altamente rentável e fora das amarras da economia de mercado, já que os trustes determinarão o nível de produção, de pesquisa, dos preços e ainda farão do Estado o seu entreposto comercial.

A apropriação deste nicho de mercado pelos laboratórios transnacionais, faz com que a economia de mercado desapareça e o Estado e os pacientes fiquem a mercê dos preços, da produção e das políticas que estes laboratórios implementam.

Para os homens educados na sociedade capitalista, isto parece normal. No entanto, apesar da sociedade atual querer nos fazer crer que esta forma de produção é "natural", isto não é real. No feudalismo, na Roma Antiga, no Egito, a forma constitutiva da relações humanas e sociais produziam outro espectro.

Esta abordagem, vai ao encontro de decodificar as formas pelas quais a questão da Aids materializa-se em mercadoria e na busca da compreensão da totalidade na qual a mesma está inserida.

A questão da Aids tem interpenetrações nas diversas áreas da vida e das relações sociais. Pela interpenetração deve-se entender não a unificação dos sistemas em algo único, não a soma ímpar do conhecimento alcançado por várias ciências e ou setores da economia e da política, mas o processo de inter-relação que todas as coisas possuem.

Nesta dimensão, a ciência é desenvolvida de tal forma que ela passa a ser necessária para produzir máquinas que vão desenvolver máquinas. Também no caso da Aids, a ciência será usada de forma a fragmentar e não interpenetrar, a pesquisa, o tratamento, o controle epidemiológico. Assim, quanto mais fragmentado for todo o processo, mais mercadológico ele será e muito mais lucrativo.

Esta questão é importante e não é nova. Há uma tendência a dividir processos na expectativa de, com isso, melhorar sua eficácia - uma herança Taylorista, vigente até hoje na organização da relações de produção, no todo da coisa pública e também no combate, controle e tratamento da doenças infecto-contagiosas.

Esta degradação foi resumida por Taylor em torno de três princípios, basicamente. Primeiramente propunha a separação do processo de trabalho da especialidade, vale dizer, o processo de trabalho deve ser independente do paciente. Isto é necessário para garantir a organização do processo e produzir o maior lucro possível. Uma necessidade de tal importância para o capital que não pode ficar na dependência do paciente. Por isso o Estado assume o papel de entreposto comercial. O segundo princípio é um aprofundamento do anterior: deve-se separar a concepção do processo de controle/ combate/tratamento da Aids, de sua realização de tal forma que o paciente não tenha condições de tomar qualquer decisão durante o processo. As decisões fundamentais já foram tomadas por antecipado e de forma científica. Desta forma o paciente é mercadoria. O terceiro princípio implica em manter o monopólio sobre o conhecimento de todo o processo de forma a poder otimizar custos na produção e garantir lucros na comercialização.

Fica claro porque coube aos órgãos governamentais, a tarefa de prevenção e controle.
Quando os governos atuam na prevenção e controle, assumem - em nome da sociedade - a parte mais onerosa e difícil, ficando para os empresários a parte "técnica" que necessita investimentos mas que possui retorno garantido e vultoso.

Portanto, na ótica do capital, a Aids é mais que um nicho de mercado, é a possibilidade, inclusive, de ter o controle de uma porção da seleção natural da espécie. Isto parece barbárie, mas é real. Basta observar as estatísticas mundiais e constatar que a maior incidência se verifica nas áreas globais de maior pobreza e miséria social/econômica/cultural..

Penso que analisar a questão da Aids dentro do contexto da globalização é mais uma possibilidade de olhar a mesma nas suas multi-interfaces e na possibilidade de buscar as interpenetrações para a solução da questão.

Uma das soluções seria a publicização de todo o processo pesquisa/prevenção/controle. Outra, seria um tratamento sociológico e não mercadológico a todo o processo que produz e materializa a questão da Aids. Por fim, publicizar as políticas públicas de dimensão ao trato das problemáticas epidemiológicas, para se estabelecer garantias e qualidade de vida.

Na relação Aids e globalização, globalizou-se o mercado e garantiu-se o lucro, ficando o paciente e a humanidade a mercê daqueles que se apropriaram mercadologicamente da pesquisa, do tratamento, da epidemiologia e do controle.
Na era das parcerias, das democracias e das liberdades de mercado, o paciente da Aids está preso e subjugado aos interesses do Capital.

Como a Aids é produto das relações sociais que estruturam a sociedade, esta mesma sociedade deve, como um todo, arcar com o ônus de seu produto.

FERNANDO MARTINS BAEDER

1 Dr. FERNANDO MARTINS BAEDER, CD

- Farmacologista-UFLA

- Pós-Graduado e Habilitado em Sedação Inalatória pela PUC/Rio

- Criador de protocolo para atendimento odontológico à pacientes HIV - 15 anos

- Habilitado em Emergências Médicas (BLS e ACLS) - Centro de Treinamento Berkeley

- Prof. Convidado do Curso de Habilitação em Sedação Inalatória da PUC/Rio

Bibliografia:

AMATO, Vicente Neto. etti alli. AIDS na Prática Médica. São Paulo: Sarvier, 1996
BRAVERMAN, H. Trabalho e capital Monopolista: a degradação do trabalho no Século XX. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
BRINHOSA, Mário C. Interdisciplinalidade: Possibilidades e Equívocos Florianópolis 1996 ( mímeo)
GUYTON, Artur C. Fisiologia Humana e Mecanismos das Doenças. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 1992
KELLE, V. La ciência como componente del sistema social. In Academia de Ciência de URSS (Org.), La ciência y la técnica: el humanismo y el progresso.Moscou 1972.
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STITES, Daniel P. & Terr, Abba I. Imunologia Básica. Rio de Janeiro: Prentice - Hall do Brasil LTDA. 1992.


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