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RELAÇÕES
HUMANAS NA INSTITUIÇÃO CAUSANDO ANSIEDADE E
DEPRESSÃO
Vera
Lúcia Galli
RESUMO
O objetivo deste trabalho é pensar acerca das
relações humanas nas instituições causando ansiedade
e depressão, a partir do relato de uma experiência
vivida pessoalmente, em equipe multidisciplinar,
numa clínica-escola para atendimento odontológico
a pacientes especiais.
Quando redigi este trabalho tive uma certa dificuldade
em iniciá-lo. Elaborei pelo menos umas três
versões anteriormente a esta, mas percebia-as
como se retratassem um filme em preto e branco,
desprovido do colorido das emoções que experimentava.
Isto porque passei a viver, como personagem
principal, o tema desta mesa. A ansiedade, com
seu sinal característico: estado afetivo com
acentuado caráter de desprazer se fazia anunciar.
Baseada na contribuição de alguns autores, como
Zimerman e Svartman, concordo que é essencial
discriminar a ansiedade que paralisa e leva
a evitar situações novas daquela que favorece
a autopreservação e a criatividade e que, em
certo grau, pode ser terapeuticamente útil.
O meu objetivo com esse relato é, portanto,
compartilhar com vocês, leitores, a experiência
que vivi, recordando inicialmente um episódio
vivido durante o ano de 1997, o qual, a meu
ver, condensa alguns dos sintomas institucionais.
A partir do relato desse episódio, minha expectativa
é pensar o acontecido: o que fazer quando nos
encontramos trabalhando em instituições e somos
surpreendidos pelos imprevistos?
Há alguns anos supervisiono, junto a uma equipe
multidisciplinar composta por dentistas, psicólogos
e fonoaudiólogos, alunos do último ano de Odontologia,
que prestam atendimento numa clínica-escola
a pacientes especiais. Os pacientes especiais,
crianças e eventualmente adolescentes, apresentam
deficiências ou doenças físicas, mentais ou
sensoriais e, em função desta condição ou estado,
necessitam, do ponto de vista odontológico,
de cuidados especiais durante um tempo ou por
toda a sua vida. Os alunos, em número de cem,
atendem aos pacientes, em duplas, semanalmente,
divididos em dois turnos, manhã e tarde.
No ano de 1997, uma das alunas que eu acompanhava
solicitou que eu escrevesse um artigo para o
jornal que um grupo de alunos, liderado por
ela, estava estruturando. Era um novo canal
de comunicação, fora dos padrões habituais,
num curso como o de Odontologia, em que iniciativas
dessa espécie inexistem. Também Clara (nome
fictício) fugia do habitual. Já havia sido reprovada
no ano anterior. Era inquieta, desafiava as
figuras de autoridade e utilizava métodos bastante
singulares para atender a seus pacientes - cantava,
conversava muito e os acariciava. Com um sério
problema de drogadicção, muitas vezes comparecia
à clínica completamente "anestesiada",
causando problemas aos professores e aos pacientes.
Em virtude disso, gerava muita polêmica, sendo
a estranha e diferente do contexto.
O ano de 1997 terminou, o Jornal dos alunos
não existe mais, Clara se formou, porém o "estranho
e diferente", dos quais ela era protagonista,
permaneceram, expressos, de forma contundente,
nos corpos dos pacientes especiais. Nas sensíveis
palavras de enfatiza Amaral (1996,p.262), "...do
ponto de vista psíquico, as diferenças significativas
jamais passam em "brancas nuvens":
desorganizam, ameaçam, mobilizam. Pois representam
aquilo que foge ao esperado, ao simétrico, ao
belo, ao eficiente, ao perfeito... A hegemonia
do emocional sobre o racional (mesmo que momentânea)
é inexorável."
O estranhamento provocado pelo espelho que reflete
uma imagem desigual e anti estética, aciona
a categoria do "assustador". Freud
já nos advertia que todo afeto pertencente a
um impulso emocional, qualquer que seja a sua
espécie, transforma-se, se reprimido, em ansiedade:
portanto, aquilo que nos assusta, e que recebe
a denominação de "estranho", não é
nada novo ou alheio e sim o familiar que se
alienou através do processo de repressão. O
fundamental em seu pensamento, porém, é que
examina a estética não simplesmente como a teoria
da beleza, mas como a teoria da qualidade do
sentir. Essas afirmações podem nos levar a inferir
que tudo aquilo que é belo, simétrico e está
em ordem, aciona as nossas melhores emoções,
ao passo que o inverso acionaria as emoções
"pior" sentidas.
A partir dessa linha de pensamento, retornamos
então à história de Clara, aos alunos, aos pacientes
especiais e à questão da ansiedade. Clara era
a expressão do "anestesiante", do
bloqueio ao processo de "pensar as emoções",
na medida em que a utilização das drogas transportava-a
para um mundo ideal no qual se refugiava, tornando-se
rainha e prisioneira. Contudo, ela não expressava
somente problemas individuais. Aparecia como
porta-voz das dificuldades grupais, à medida
que percebíamos como recorrente essa característica
de não querer pensar, compreendido este termo
aqui no sentido dado por Bion, e que Fernandes
(1997) esclarece, ao recordar que "entre
uma necessidade não satisfeita e uma ação que
a satisfaça, há um vazio - de espera - com algum
grau de frustração. O pensar visa a preencher
exatamente esse vazio". Uma hipótese a
ser levantada, nesse sentido, é que a esquiva
ao pensar, portanto, pode surgir em decorrência
da ansiedade a ser suportada durante este intervalo,
este espaço. Em seu lugar, o entorpecimento
causaria a sensação ilusória do preenchimento.
Ora, se pensarmos que um vazio nunca pode ser
destruído e sim preenchido para que venha a
adquirir colorido e significado, tratava-se
então de investir na possibilidade de construir
um espaço, em que a ansiedade pudesse ser suportada
e as emoções pensadas. Acreditando nessa possibilidade,
aos poucos fomos organizando grupos com os alunos
e fomos caminhando: a qualidade dos vínculos
entre todos os envolvidos foi se modificando
e ciclos, anteriormente abertos, se fechavam
e configuravam de outra forma, em virtude do
meu próprio movimento e da equipe envolvida.
Discutíamos, dentistas, psicólogos e alunos,
as dificuldades que surgiam e a equipe de profissionais
se reuniu para discutir seus próprios problemas
na comunicação.
Assustadoramente, porém, terminava a história.
Com uma morte súbita, provocada por problemas
institucionais, que fugiam completamente ao
nosso controle. Recebemos, inicialmente, a notícia
de que não somente as psicólogas, mas também
a equipe, como um todo, iria se desfazer...
Mais de trezentas crianças deixariam de ser
atendidas e provavelmente teriam dificuldade
em encontrar quem o fizesse, pelas características
que possuem. Entretanto, o nocaute apenas deixou
o trabalho na lona, bombardeado, sem que pudéssemos
saber se era possível o luto ou não. Em uma
semana, isso mudou, adquirindo a seguinte oscilação:
talvez ficasse alguém da equipe de Psicologia,
talvez as coordenadoras de Odontologia fossem
substituída, talvez as condições de atendimento
fossem reduzidas e um número menor de crianças
passassem a ser atendidas, talvez tudo ficasse
como antes, ou talvez o trabalho como um todo
desaparecesse.
O impacto causado pela notícia abrupta fez brotar
todo o tipo de ansiedade que podemos imaginar,
inclusive aquelas mais primitivas. Momentaneamente
não era possível pensar, pois a frustração era
também muito grande. Passei a sofrer desse sintoma
institucional, dramatizado pelos alunos e me
lembrei de Clara e dos pacientes especiais.
Expressavam a diferença que, como vimos, aciona
o familiar. Numa situação de extrema ansiedade,
talvez o pior que há em nós seja mesmo acionado.
Quando o corte na equipe aconteceu, recordo
que houve momentos em que pensei: "caso
entre em outra instituição, não vou mais me
envolver com em ninguém, não posso confiar,
preciso manter uma atitude neutra". Parece-me,
contudo, que essas são formas sutis de a depressão
se insinuar. Não me entorpeci e estruturar este
trabalho é uma oportunidade para pensar, criar
e compartilhar.
À pergunta inicial do que podemos fazer quando
surgem os imprevistos nas instituições, responderia:
precisamos considerá-las (as instituições) não
alheias a nós mesmos, mas como parte integrante
do nosso fazer, que nele interfere, e que nos
coloca às voltas com nossa própria responsabilidade.
A partir dessa perspectiva, podemos organizar
alguns meios para assegurar de que o acontecido
possa ser pensado e integrado, ou como lembra
Oliveira (1997), construir vínculos ansiolíticos:
indo atrás de supervisão adequada; tendo relações
profissionais ricas - participando de congressos,
grupos de estudo, grupos de reflexão; fazendo
psicoterapia; estando ativamente envolvido no
trabalho (e não passivo ou distante); conseguindo
ter um amigo (preferencialmente saudável) dentro
da instituição. E eu acrescentaria às idéias
da autora - registrando, realizando e publicando
artigos, dissertações, enfim, comunicando aos
outros a atividade realizada.
As palavras escritas para Clara, e divulgadas
para os alunos, viajaram pelos espaços. Quando
ela se formou, decidiu que não seguiria a profissão
e me disse: "Estou sempre no mundo da lua
e me sinto mais segura lá, mas você é meu fio
terra". Sei que Clara precisava de um acompanhamento
psicoterapêutico, porém, de alguma forma, ela
tocava o estranho/familiar, das emoções "pior"
sentidas, que é ativado em situações de muita
ansiedade. Para finalizar, compartilho com vocês
o artigo a que já me referi, que conta dos sabores
e dissabores ao estarmos vivos e vinculados;
é o que continuo acreditando.
A Clara solicitou que eu escrevesse um artigo
para o Jornal de Odontologia. Tenho pensado
desde então: o que escrever, como chegar até
vocês? Andando pelos corredores, subindo e descendo
as escadas, deparo-me com o mural que diz: "Jornal
de Odonto . Participe!" Percebo que o espaço
está basicamente preenchido com comunicados
diversos : desde festas até cursos, anúncios
de trabalhos que podem ser realizados, digitação...
Comunicação: ouvir, ver, tocar, ler. Outro tempo.
Do ônibus, parado na Avenida Rebouças, olho
pela janela e vejo vários mendigos que se ajeitam
debaixo do viaduto, preparando as cobertas,
às seis horas da tarde. Um deles se destaca
do grupo e grita: "O que está olhando?
Pare de olhar!". Apossa-se de um galão
de plástico e joga em direção ao ônibus. Continua
gritando, enquanto as pessoas vêem e comentam.
Abaixa-se para apanhar alguma coisa. Tenho a
nítida sensação de que irá atirar e faço menção,
assim como muitas outras pessoas, de me abaixar.
Medo! Vejo, ouço, não toco.... Comunicação,
tempo, violência. Outro tempo...
Sou integrante de um tempo em que toda uma geração
viveu sob a égide do silêncio - repressão, ditadura,
AI5, exílio - e buscou se fazer ouvir, por meio
de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso,
Elis Regina, Jovem Guarda, Beatles, Rolling
Stones. Conviviam alienação e tortura, silêncio
e denúncia. Poderíamos pensar: tempos difíceis,
tempos violentos! Entretanto, que tempos são
esses que vivemos? O que existe hoje?
Parece-me difícil, atualmente, buscar compreender,
como lembra Maria Valéria Pelosi H.Salles Lima,
que recorda R.M. Rilke, esta "floresta
dos contrastes". Tudo aparece fragmentado,
como um gigantesco quebra-cabeças do qual tentássemos
inutilmente juntar as peças e compor um desenho
que não tem forma. Nossa comunicação ocorre
via internet, computador, fax, telefone celular...
Tudo muito rápido. A cada dia são acumuladas
informações, inovações, novas tecnologias, novos
medicamentos, novas descobertas. Comunicação
virtual, relacões virtuais. Corremos, o tempo
todo, atrás do tempo, sempre com a sensação
de estarmos perdendo. Paradoxalmente, quanto
mais obtemos, menos retemos. É como se as informações
ganhassem vida e escapassem por entre nossos
dedos ou como se não tivéssemos dedos suficientes
para segurá-las. Com tanta fragmentação, aceleração,
como parar para olhar um mural, ler o que está
escrito, perder tempo? Como parar para sentir?
Há tempo?
Tempos difíceis. A violência hoje se insinua
sutil e claramente, impregna os vínculos, está
presente no cotidiano. Percorre os viadutos,
se aloja debaixo deles, nos cantos, nas ruas.
Penso no mendigo que vi através da janela do
ônibus. Pareceu-me violento. Porém, não é menos
violento não existir a mínima distinção entre
o que se constitui seu universo público e privado.
Sua vida ou, mais do que isso, sua intimidade,
está exposta à visitação pública. Amar, comer,
compartilhar?
Esses sentimentos, pensamentos, nos causam medo.
Para evitá-los, também evitamos o contato com
tantos estímulos que nos tocam no cotidiano:
sons, imagens, palavras que ferem; evitamos
o caos. Talvez precisemos disso; caso contrário,
provavelmente, enlouqueceríamos. Cada um de
nós encontra uma maneira: torce para um time
de futebol, ouve música, lê, se apaixona, "malha"
na academia, toma cerveja num bar, joga futebol,
se envolve em mil atividades, estuda, dá aulas....
Por um momento é como se pudéssemos transformar
tudo numa bruma branca, mistura de todas as
cores, neutralizadora, anestesiante, que bloqueasse
e bombardeasse os sentidos. Ocupamos o tempo
de pensar e, principalmente, de sentir. E quanto
mais ocupamos, mais sentimos e mais tememos.
Tememos a falta de tempo ou a possibilidade
de encontrá-lo?
Parece ser esta a grande questão: o homem já
enveredou por muitos caminhos, numa constante
peregrinação para acumular conhecimento acerca
de si, do mundo e dos outros. Não deu conta.
Talvez lhe falte a possibilidade de estar consigo
mesmo e estar com o outro. Pensei em me comunicar
com vocês, em chegar até vocês, tocá-los com
e pelas palavras. Comunicar é poder tocar a
si e ao outro, compartilhar, estar vivo numa
relação. E estar vivo é isto: acarinhar e magoar.
Tememos, porque não queremos perder quem amamos
ou sofrer com nossas próprias asperezas e a
dos outros.
Porém, somos seres "sentintes" e,
como tal, humanos, com todas as ambivalências
que tal característica comporta. Talvez este
tempo implique viver e conviver nesta e para
esta complexidade, tornando claro o escuro,
compartilhando o caos, a desorganização, o medo,
a alegria e a tristeza, o amor e o ódio.
Carpem die!
Referência Bibliográfica:
AMARAL, L. A . Corpo Desviante/Olhar Perplexo
- Fragmentos da Tese de Doutorado: Espelho
Convexo: o corpo desviante no imaginário coletivo,
pela voz da Literatura Infanto- Juvenil.
Rev.Psicologia USP - São Paulo, 5 (1/2) p.245-268,
1994.
FERNANDES, W.J. - Comunicação e Vincularidade
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de Educação Permanente em Psicanálise dos Vínculos,
São Paulo, 1998.
FREUD, S. (1919) O Estranho. Tradução sob a
direção geral de Jayme Salomão. Rio de Janeiro,
Imago,1988.
(Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, v. 17)
OLIVEIRA, N.M.F.M. de - Vínculos Ansiolíticos
- Compilação de trabalhos do II Congresso de
Psicanálise
das Configurações Vinculares, I Encontro Paulista
de Saúde Mental e Psiquiatria - Serra Negra,
1997.
SVARTMAN, B. - A abordagem vincular da ansiedade
e a psicoterapia analítica de grupo - Compilação
de
trabalhos do II Congresso de Psicanálise das
Configurações Vinculares, I Encontro Paulista
de Saúde
Mental e Psiquiatria - Serra Negra, 1997.
ZIMERMAN, D. E. - Fundamentos básicos das grupoterapias
- Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 1993.
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