REVISTA
DA FOLHA DE SÃO PAULO - 11 DE JANEIRO
DE 2004.
Analgesia inalatória é cara,
mas pode ser a solução para
quem tem pavor de dentista

A psicóloga Helga Nabinger Silva, 48,
inala óxido nitroso durante consulta
odontológica
Ares calmantes
[por
Débora Yuri]
A
psicóloga Helga Nabinger Silva, 48, detesta
ir ao dentista "desde sempre". "Tenho
pavor de sentar naquela cadeira. Passei a vida
sofrendo toda vez que tinha uma consulta marcada:
nos dias anteriores, não conseguia dormir,
tinha herpes e diarréia e acabava tomando
tranquilizantes por minha conta e risco."
Helga
ganhou um alento. Trata-se da analgesia inalatória,
ou sedação consciente inalatória,
um procedimento que começa a ser difundido
nos consultórios odontológicos
dos grandes centros e que consiste no uso de
uma máscara que exala oxigênio
e óxido nitroso.
A
inalação não substitui
a anestesia local -sua função
é outra, de controlar o medo e a ansiedade
do paciente. O óxido nitroso atua no
córtex cerebral, provocando sensação
de relaxamento e semidormência.
O
método é popular nos EUA, na Europa
e no Japão. "É um aliado
para a pessoa que tem medo, porque a deixa sedada,
mas consciente", explica a dentista Carla
Gonçalves Gamba, 42, professora de analgesia
inalatória da PUC-RJ. Ela diz que o "cheirinho"
(muitos relatam sentir um ligeiro sabor doce),
como a sedação é chamada
pelos usuários, já é um
sucesso de público.
A
sedação pode durar todo o tempo
do procedimento a ser feito pelo dentista, que
controla a quantidade de gás liberada.
Não há restrição
de idade. Cinco minutos após o desligamento,
o indivíduo já está apto
a fazer qualquer coisa, inclusive dirigir.
"É
uma sensação legal, porque você
não sente nada, nem medo nem dor, e aos
poucos vai adquirindo confiança, perdendo
o pânico de ir ao dentista. É como
estar em transe ou hipnotizada", conta
Helga.
José
Ranali, 54, professor de farmacologia, anestesia
e terapêutica da Faculdade de Odontologia
de Piracicaba, da Unicamp (Universidade Estadual
de Campinas), ressalva que a sedação
só deve ser usada por quem tem fobia
de dentista -não apenas medo, mas o excesso
dele, que gera ansiedade- e só em alguns
momentos, como procedimentos traumáticos.
"O
risco é mínimo, mas é importante
agora que se discuta como regulamentar as condições
de capacitação no Brasil",
diz o professor, que coordenou estudos para
o Conselho Federal de Odontologia, visando a
implantação da técnica
no país. "A maioria dos cursos de
odontologia não ministra aulas sobre
como usar essa técnica, e o dentista
precisa passar por um treinamento sério
para aprender", afirma.
Segundo
Carla Gamba, a liberação excessiva
de gás provoca mal-estar, além
de haver o risco de o paciente enjoar, entrar
em delírio ou cair no sono.
Ranali
lembra que é recomendável o uso
do oxímetro de pulso no paciente, responsável
por monitorar a frequência cardíaca
e o nível de oxigênio no corpo.
Ele discorda, porém, dos dentistas e
anestesistas que defendem a execução
do procedimento apenas em ambiente hospitalar
ou com a presença de um especialista
em anestesia.
"É
até mais seguro com a sedação,
porque pacientes com fobia de dentista, quando
submetidos a uma situação de muito
estresse, podem sofrer aumento da taxa de glicemia,
da pressão arterial e dos batimentos
cardíacos", explica.
Apesar
do alívio que oferece, a sedação
consciente é cara. Uma sessão,
separada do tratamento, pode custar entre R$
120 e R$ 250 por hora. Para os pacientes com
fobia de dentista, o preço vale a pena.
"Tenho
feito os procedimentos mais dolorosos sem sentir
nada, nem dor nem angústia: canal, limpeza
de dentes, obturação", conta
o publicitário Artur Bernstein, 69.
Ele
compara a sedação a "uma
leve sensação de inalação
de lança-perfume". "Eu fico
relaxado mas ligado, e sinto a dentista martelando.
Mas não existe dor, nem aquele medo angustiante
de que ela possa vir a qualquer movimento do
profissional."
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