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Banco de Dentes Revê Práticas Acadêmicas

Por Lúcia Seixas, jornalista do medcenter.com

Ajudar crianças que perderam seus dentes por cárie ou trauma é o principal mote da 1ª campanha de Doação de dentes de leite, promovida pela Faculdade de odontologia da USP. Até o momento, a campanha já recebeu mais de 7.500 dentes de várias partes do Brasil e todas as doações vão para o Banco de dentes Humanos da Fousp.

A campanha é um sucesso e, graças às doações, muitas crianças estão corrigindo suas arcadas através de procedimentos de colagem e prótese. No entanto, apenas 10% do acervo do banco é utilizado nas clínicas de Odontopediatria da Faculdade.
A maior parte dos dentes doados tem como destino a pesquisa acadêmica, para desenvolver trabalhos com resinas, amálgamas e outros materiais.

Segundo José Carlos P. Imparato, professor da disciplina de odontopediatria da USP e responsável pela campanha, a demanda por dentes humanos - de leite e definitivos - é muito grande, já que são muitos os trabalhos desenvolvidos na faculdade. Além da produção interna, o Banco de Dentes da Fousp supre ainda outros centros acadêmicos, priorizando as dissertações de mestrado e teses de doutorado. "Só nos últimos meses, enviamos 80 dentes para Bauru, 20 para o Rio de janeiro e 500 para Piracicaba!, diz o professor, que é ainda professor da Unicastelo e da Unicsul.

Velhas Questões

A idéia de um banco de dentes não é original. Diversas faculdades e muitos profissionais mantêm suas coleções de dentes, principalmente para fins de pesquisa. No entanto, a criação de uma estrutura diferenciada para receber e armazenar dentes humanos, como aconteceu na Fousp, é um fato pioneiro e vem levantando questões importantes. Uma delas é o problema do comércio de dentes, com o qual a Odontologia vem convivendo há muitos anos, o que precisa ser reavaliada.

A maior justificativa dessa necessidade é o fato do dente ser considerado um órgão humano. Em 1997, no ocasião da formulação da nova Lei de Transplantes brasileira, a equipe que coordenava o Banco de Dentes Humanos da Fousp conseguiu, através do Departamento de odontologia da Vigilância Sanitária de São Paulo, que os dentes fossem reconhecidos como órgãos.

Dessa forma, o funcionamento de um banco de dentes passou a ser similar ao de um banco de órgãos, o que torna necessária a autorização do doador para a utilização dos seus dentes. "Embora os problemas éticos que envolvem os dentes sejam menores, eles precisam ser considerados", diz o professor Imparato.

Segundo cálculos de professor, uma Faculdade de odontologia gasta de três a quatro mil dentes durante um semestre. Se existem 150 faculdades no Brasil, algo em torno de 450.000 dentes circulam pelas fa culdades a cada semestre, sem nenhum tipo de controle. Até agora, a origem desses dentes nunca foi questionada.

A conscientização dos professores seria o primeiro passo para acabar com o problema da propriedade e do comércio de dentes. São eles que devem evitar que os alunos levem para a faculdade dentes de origem desconhecida, muitas vezes conseguidos em cemitérios. "Uma pesquisa realizada pelos CDs Paulo Afonso Gabrielle Filho e Sandra de Paula apontou que cerca de 50% dos estudantes de Odontologia já compraram estruturas ósseas ou dentes para treinamento laboratorial em São Paulo e no Rio de Janeiro", diz o prof. Iarato.

A consciência ética da oferta de dentes certamente deverá mexer com velhos hábitos também nas clínicas e consultórios odontológicos. Nas extrações, o correto a partir de agora é registrar a origem de cada dente. Assim será necessário que o paciente autorize por escrito a doação dos seus dentes para as atividades acadêmicas. Segundo o professor Imparato, a universidade já esá fazendo contatos, com serviços de odontologia em algumas prefeituras para normatizar esse procedimento.

Um outro caminho para o fim do comércio de dentes humanos é a substituição deles por peças artificiais. A alternativa é bastante viável e já existem fabricantes nacionais dessas peças, que podem ser utilizadas nas faculdades de Odontologia. Entretanto, o custo desses dentes artificiais ainda é um pouco alto.

Trabalho Multiplicado

O Banco de Dentes Humanos da FOUSP é uma instituição centralizadora e fiscalizadora da formação de novos bancos de dentes no Brasil. Foi legalmente reconhecido dessa forma em 1999 e desde então, vem procurando estimular a criação de novos bancos nos demais estados do País.

Segundo o CD Maurício de Oliveira Mota, que é um dos fundadores e atual diretor administrativo da instituição, várias faculdades vêm demonstrando interesse em formar novos bancos, mas nenhuma até agora havia preenchido as exigências técnicas para isso. Este mês, a Faculdade de Odontologia da UniFOA - Fundação Oswaldo Aranha de Volta Redonda (RJ), banco de dentes humanos.

A faculdade é a primeira a receber a chancela da Fousp e já está recebendo doações. "Para criar um banco de dentes, é necessário que a instituição esteja de acordo com as normas técnicas estabelecidas pela Vigilância Sanitária e com os procedimentos preconizados por nós", diz o Dr. Maurício de Oliveira Mota.

Doação Simples

Os dentes recebidos pelo Banco de Dentes Humanos da USP recebem tratamento especial. Todos são identificados e, ao invés de armazenados a seco, como é comum, são guardados em solução, para evitar a desidratação e afastar o risco de fraturas. A água comum e o soro fisiológico são os líquidos mais usados para esse fim, sempre sob refrigeração,mas outras substâncias vêm sendo pesquisadas, como formol e azida de sódio.

Já foram realizados na Fousp dois trabalhos de mestrado para pesquisar novas formas de conservação dos dentes e mais outros dois estão sendo desenvolvidos. Outra frente de pesquisa da faculdade levanta formas de esterilização e desinfecção dos dentes recebidos. Por enquanto, a autoclave é o melhor método para esterilização, mas o glutaraldeído também vem sendo considerado uma boa opção.

Qualquer dente pode ser doado, independente do seu estado ou do tempo em que tenham caído. A campanha tem um simpático mascote e todas as crianças que colaboram tornam-se sócias do Clube de Dentes de Leite. As doações podem ser feitas no local ou por carta e toda criança que doa seu dente torna-se sócia do Clube do Dente de Leite. Os envelopes com os dentes devem ser enviados para os seguintes endereços:

Disciplina de Odontopediatria da USP

Avenida Professor Lineu Prestes nº 2227

Cidade Universitária - São Paulo - SP

CEP: 05508-900

 

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