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Dentista sem dor?
Quem nunca sentiu um arrepio antes de receber uma aplicação de anestesia para tratamento de cáries? E o barulho do motorzinho durante o tratamento? Quem nunca ficou apreensivo com isso? Para aqueles que sentem calafrios somente ao ouvir a palavra dentista, começa a ser empregada nos consultórios uma alternativa à dor do tratamento convencional - a aplicação do gel de papaína, substância produzida a partir de uma enzima encontrada na casca do mamão papaia. O produto foi desenvolvido pela equipe da pesquisadora Sandra Kalil Bussadori, da Faculdade de Odontologia da USP de São Paulo e da Universidade Metropolitana de Santos. Depois de quase cinco anos de pesquisa, em janeiro deste ano o gel chegou ao mercado, batizado de Papacárie. Sem a necessidade de anestesia, o gel é aplicado diretamente sobre a cárie e, entre 30 e 60 segundos, dissolve o tecido cariado, permitindo que o dentista faça a limpeza do local e proceda a restauração. A única situação onde o motorzinho ainda deve ser utilizado é quando a cárie surge em uma região já restaurada ou de difícil acesso. "Neste caso usamos a broca para retirar a restauração antiga e chegar até a cárie. A partir daí, é só utilizar o gel", afirma a dentista Patrícia Lucca Dantas Voi, de Ribeirão Preto, que depois de conhecer o produto em um curso em Campinas, começou a utilizar o gel em caráter experimental. "As primeiras impressões que tenho é que o procedimento é muito bom, pois ele age apenas no tecido cariado, preservando o tecido sadio", afirma a dentista. A estudante Stela Maris Ribeiro Bernardes, de 11 anos, é uma das pacientes que já se submeteram ao tratamento de cáries com a papaína. "No começo fiquei preocupada, pensei que ia doer, mas não senti nada", diz a estudante. Segundo a dentista, o gel da papaína é indicado principalmente para crianças, idosos, pessoas com sensibilidade aos agentes anestésicos e, principalmente, para aqueles que sofrem de odontofobia. "Muitas pessoas têm traumas da anestesia e do motorzinho", afirma Patrícia. Outra utilização do gel da papaína é na remoção do tártaro. "Ele amolece o tártaro, diminuindo assim o desconforto do procedimento", avalia a dentista. Técnica pode ampliar acesso ao dentista Além do medo e da dor, outro fator que afasta as pessoas dos consultórios dentários é o custo do tratamento. Os dentistas que utilizam o gel de papaína apostam no produto como um motivo a mais para atrair os pacientes. "Cada ampola de 10 ml do gel permite a realização de até 60 procedimentos", afirma Patrícia Voi. A unidade da ampola do gel, que foi patenteado pelos pesquisadores no Brasil e na Europa, custa R$ 30,00. Existe no mercado, desde os anos 90, um outro produto similar, desenvolvido na Suécia, que custa cerca de R$ 200,00 a unidade. Segundo a equipe que desenvolveu a pesquisa, a grande vantagem do gel de papaína é a sua utilização na rede pública, ampliando o acesso das populações mais carentes aos tratamentos dentários. Segundo dados levantados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), até 1998, cerca de 30 milhões de brasileiros nunca tinham ido ao dentista. O Ministério da Saúde estima que 13% dos adolescentes nunca foram ao dentista, 20% da população brasileira já perdeu todos os dentes e 45% dos brasileiros não têm acesso regular à escova de dente. Em Ribeirão Preto, a Secretaria Municipal da Saúde está realizando um levantamento para mapear o setor. Os últimos números, levantados em 2000, apontam um índice de 1,62 de CPO (cárie, dente perdido ou obturado) entre crianças até 12 anos no município. De acordo com o diretor da Divisão de Odontologia da secretaria, Vicente de Paula Martino, a rede pública municipal ainda não utiliza o gel da papaína. "Eu, particularmente, não conheço este produto e acredito que primeiro deva ocorrer um amplo estudo sobre sua eficácia, senão vira mais um modismo como tantos outros que já apareceram", afirma, desconfiado, Martino. De acordo com a dentista Carolina Cardoso Guedes, que participou das pesquisas para o desenvolvimento do gel de papaína, o produto já foi liberado pela Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e municípios como Mogi das Cruzes, na grande São Paulo, já utilizam o produto na rede pública de atendimento. Medo do motor é antigo A restauração químico-mecânica de cáries, com a utilização de produtos como o gel de papaína ou o similar sueco, representa a terceira geração do tratamento de cáries. Em 1864, nos EUA, o pesquisador Horace Wells desenvolveu o primeiro anestésico. "Antes disso os profissionais da época usavam o ópio, bebidas alcoólicas e até mesmo hipnose para aliviar a dor nos tratamentos", diz a dentista Patrícia Voi. O motor utilizado atualmente foi desenvolvido na década de 50. Ele tem velocidade de 200 a 300 rotações por minuto. Antes disso, a velocidade da broca era de cerca de 4 mil rotações por minuto. A broca girava graças a uma engenhoca que envolvia até mesmo um pedal onde o dentista se esforçava para girar a correia nos tratamentos dentários, que demoravam horas. Angelo
Davanço |
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