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Tratamento Restaurador Atraumático

Por Lúcia Seixas

O método, que tem o aval da Organização Mundial de Saúde, chama-se Tratamento Restaurador Atraumático (também conhecido pela sigla ART) e já vem sendo utilizado também no Brasil.

"Trata-se de uma alternativa operacional para controlar as lesões da cárie, que utiliza instrumentos manuais como as curetas de dentina, machados e enxadas, pouco utilizados na clínica convencional atualmente", explica o dr. José Carlos Pettorofsi Imparato, professor de Odontopediatria da Fousp, Unicastelo e Unicsul e um dos estudiosos e defensores da técnica do Brasil. Dr. Imparato é ainda um dos fundadores e diretor-presidente do Instituto Fauchard, uma ong que desenvolve projetos de saúde e meio ambiente.

Além de não requerer eletricidade ou água pressurizada, o ART apresenta outras vantagens, como o fato de reduzir ao mínimo a dor do paciente, já que a mão do profissional é mais controlável do que os motores. Isso agrega outra vantagem à técnica, que não assusta as crianças e adultos que nunca receberam tratamento dentário.

Mas é certamente o material o grande diferencial do tratamento. Contendo flúor, o cimento de ionômero de vidro produz uma restauração definitiva, que possui ainda a vantagem de possibilitar a remineralização da dentina afetada, mas não infectada pela cárie.

Correntes contrárias

Como qualquer inovação, o Tratamento Restaurador Atraumático vem sendo criticado por alguns especialistas, que vêem a técnica como um "sucateamento da Odontologia". Segundo o dr. Imparato, as críticas não condizem com a realidade.

Atualmente, quando os pesquisadores discutem até que ponto o dentista deve ir na remoção da dentina cariada, o ART surge como uma solução cientificamente atualizada. "Hoje, há várias dissertações de mestrado, teses de doutorado e inúmeros trabalhos que falam da importância da preservação dessa dentina afetada e comprovam a possibilidade de paralização da evolução da cárie quando a dentina infectada é restaurada com material que libera flúor", lembra dr. Imparato.

O Tratamento Restaurador Atraumático foi primeiramente testado e avaliado em campo pelo professor Taco Pilot, da Universidade de Groninen, da Holanda, nos anos 80. Nos anos 90, sob indicação da Organização Mundial de Saúde, foi aplicado na África, Tailândia e China, com o apoio do governo holandês e alguns fabricantes de material restaurador utilizado na técnica.

Além das comunidades carentes, a técnica é preconizada para situações emergenciais, como os campos de refugiados de guerra. O interessante é que o profissional pode carregar todo o seu equipamento numa sacola. Em algumas comunidades, os dentistas chegam de bicicleta para cuidar da saúde oral dos habitantes.

Por desconhecimento, alguns profissionais acham que a técnica é a mesma da "adequação do meio bucal", que também normalmente dispensa o uso de anestesia e utiliza materiais que vedam as cavidades provisoriamente, sendo posteriormente trocados por restaurações definitivas. Está aí a diferença básica das duas técnicas: "Os materiais utilizados no ART, como o Fuji IX e o Ketac Molar, podem ser usados por um tempo mais prolongado, não requerendo a troca por outro material restaurador. Dessa forma, podem ser considerados como definitivos", ressalta o dr. Imparato.

Reconhecimento

Em função do enorme potencial que a ART oferece para o controle e tratamento da doença cárie, a Organização Mundial da Saúde a apresentou no dia 7 de abril de 1994, Dia Mundial da Saúde, ocasião que marcou o início do Ano da Saúde Bucal 1994/95. Mais recentemente, a OMS novamente lançou uma iniciativa para a promoção mundial da ART, que está acontecendo através de programas comunitários com bases educativas e preventivas em vários países.

A Federação Dentária Internacional (FDI), ciente da importância da ART, tem publicado regularmente artigos sobre o assunto e uma de suas comissões especiais cumpriu a tarefa de revisar esta técnica, aprovando-a durante uma reunião em Barcelona em 1998.

Segundo a dra. Márcia Cançado Figueiredo, mestre e doutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo, é sempre importante ressaltar que a ART deve ser considerada como parte de um pacote de promoção de saúde bucal do paciente, que inclui educação, prevenção e tratamento de urgência. É importante lembrar ainda que nenhuma restauração, a despeito de quão perfeitamente tenha sido executada, não permanecerá sem que se tomem medidas adequadas para controle de placa bacteriana.

"De forma alguma a ART deve ser vista como uma panacéia, comparando-a com os outros tipos de tratamento conservador, nem tão pouco, como uma técnica simplória e retrógrada. A abordagem da ART não só é lógica, mas também é baseada em princípios cientificamente sólidos, diz a prof. Márcia, que é ainda professora adjunta da disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 


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